F5 Pelo Mundo

Um novo trono na MPB

Por Délio Pinheiro

Em uma recente viagem de carro ocorreu-me de ouvir um álbum chamado “duetos” de Roberto Carlos. O que se seguiu na audição mais ou menos atenta foi um CD cheio de altos e baixos. E acho que estas características simplistas são úteis para entender a carreira daquele que, para muitos, é o “Rei”.
Se por um lado o álbum, que tem faixas pinçadas nos indefectíveis e inevitáveis especiais de fim de ano na TV, tem momentos brilhantes como quando Roberto canta com seu parceiro Erasmo um medley de rockões sessentistas como “tutti frutti” no especial de 77 e quando ele passa uma quase descompostura em Tom Jobim no dueto de Ligia do especial de 1978, tem também momentos bobos e pouco inspirados como na canja com Ivete Sangalo e com Chitãozinho e Xororó, para citar apenas dois.Este é o problema de Roberto Carlos, a falta de maior critério em suas escolhas. Seja no repertório insuportável que ele adotou desde os anos 80 com suas xaropadas românticas e músicas religiosas e, o que é pior, com as verdadeiras derrapadas artísticas como nas músicas bobas dedicadas a gordinhas, baixinhas, mulheres que usam óculos, mulheres que tem o pé grande e outras que não merecem nem uma nota de roda-pé em sua biografia. Biografia que ele, aliás, censurou.
O mencionado álbum ainda traz um emocionado Raimundo Fagner dizendo que sua carreira deslanchou após Roberto ter gravado “As velas do Mucuripe” no início da carreira do cantor cearense e outros bons momentos como os duetos com Milton e Caetano Veloso. Mas a inexpressiva Ivete Sangalo deixa claro que a opção do cantor e compositor capixaba é nivelar a todos no mesmo patamar. Patamar que, a julgar pela presença inacreditável de uma certa banda chamada “Calcinha Preta” em seu último especial de fim de ano, ficará ainda mais mal freqüentado daqui pra frente.
Juro que presenciei a presença desta “banda” no especial do cara. E ainda por cima tive o desprazer de ver o “diálogo” que se seguiu. Roberto perguntou para uma das vocalistas porque o nome da “banda” era Calcinha Preta e não Calcinha Azul, como seria de seu agrado. Depois os “músicos” atacaram com o tema da Norminha da novela Caminho das Índias.É Roberto, você valia muito e eu gostava de você. Principalmente do roqueiro dos anos 60 que queria que tudo fosse para o inferno a bordo de seu calhambeque e de seus álbuns de soul nos anos 70, mas lamento profundamente seu ocaso.
Portanto para mim, depois de analisar com acuidade a carreira dos grandes nomes da MPB vou eleger um novo “Rei”, levando em conta a qualidade de suas letras, sua postura diante dos anos de trevas, a maravilhosa Literatura que ele nos premia desde o fim dos anos 90 do século passado e também por sua coerência artística. Chico Buarque de Holanda, você é, pelo menos pra mim, o verdadeiro “Rei” de nossa música.

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18/01/2010 Posted by | Crônicas, Cultura | | 1 Comentário